Seu França não presta pra nada

Disse que precisa de não ser ninguém toda vida.
De ser o nada desenvolvido.
E disse que o artista tem origem nesse ato suicida.

Manuel de Barros

Conheci o Projeto Quixote quando estava sofrendo de dores da mente e em ilusão, me
encontrava num sono quase profundo. Digo quase profundo por que às vezes, conseguia sair
deste estado de ausência numa forma vulcânica e perigosa. De tempos em tempos, saia desta
caverna a qual me encontrava e, com o semblante assustado e assustador explodia. No risco
desta explosão, muitas vezes eu perecia, perecia por ter sido eu próprio. Isso me obrigava a
anestesiar esta melancolia e o preço desta anestesia custava tecer em torno de mim, uma rede
de mal entendidos. Mas nesse ato de me debater, muitas vezes mirava uma saída e uma luz
de um caminho por vir, como se soubesse que ali onde me encontrava, eu não era mais que
um forasteiro. No Quixote fui acolhido e pude acolher este caminho. Lá, aos poucos, percebi
que as ‘’dores’’ que sentia, não passavam de uma nuvem de acumulações: o menino que
riscava as paredes, o menino que fez primeira comunhão a pulso, o menino que usava a roupa
dez números maiores e era reprimido, o menino que se sentia asfixiado na escola pública e
se admirava, atraído pela rua, por um buraco raspado na tinta branca que cobria as primeiras
fileiras do vitrô da janela e que impedia os meninos como ele, de olhar para fora. Tudo isso
pesava pelo fato de meu nascimento, de minha família, de meu domicílio, de minha educação
e esse peso me fazia empenhar-me sem sucesso em numerosas relações humanas oferecidas
à mim. Depois veio o menino em conflito com a lei, seguido do menino preparado, do menino
técnico e pontual, do menino social, do menino de uma vida exterior, do menino de se deixar
ver e do menino que não se adaptava ao esforço de ser legitimado. Isso que se acumulava
sobre minha fronte me amargurava, pois sempre odiei mais que a morte, a necessidade de
fingir. Essa dissimulação involuntária e imposta me obrigava a buscar exílio, como um solitário
em busca de afeto.

No Quixote encontrei companheiros que pude compartilhar esta dor e me mostrar simples,
como eu era de fato e consegui ser franco como comigo mesmo. Pude mirar o fim do doloroso
aperto que me causava o silêncio e a dissimulação e aprender a ir e vir, suportando viver e
viver como vencedor nessas condições contraditórias e assustadoras. Lá fiz artesanato com a
Eneida, conversei bastante com a Cecília, com a Fátima, com o Roberto e com o Ota. Aprendi
a desenhar com o Anjo, como o Coe e com o Graphis e, a ouvir conselhos vindos de quem
quer que fosse e estivesse passando pelos corredores. Mais do que ouvir e dar conselhos,
era um lugar onde aprendi a ouvir e é óbvio que quem escuta, fala. É um lugar onde se
ouve e se é ouvido, de escutar e de falar e, para os jovens que a família traça o destino, sem
concessões, partindo do que o estado trilha com suas reservas, o Quixote sempre foi um
refúgio, uma “Passargada”, lá eu sou amigo do rei. Segundo os hindus, Deus se revela através

dos ouvidos e da língua mais do que pelos olhos. Sentia isso na pele, mesmo que voltasse para
casa e o que visse não correspondesse com o que eu ouvia e pensava, eu estava munido de
palavras que nutriam um germe da esperança em mim, nas coisas e nos outros. O Quixote é
um lugar que ainda se dá ao surgimento e a aparição, onde as pessoas que por lá passam ou
só ficam, trazem com sigo a obrigação de agir e agir com eficiência na crença de um milagre,
transcendendo burocracias e recursos medidos, esse é o nosso cumprimento.

Também foi lá no Quixote, onde atuo como educador social que, recentemente, Graziela
Bedoian – uma das mais singelas aparições em minha trajetória neste lugar poético, desmedido
e que só enxerga com o olho da nuca – me apresentou um livro do di Loreto chamado “Casos
& Causos No Tempo Das Diligências” e duas máximas de suas diligências se inscreveram em
mim: “só falar do presente” e “ter a mente ligada só no aqui e no agora”.

Embalado dessas duas máximas, que são de escrever nas paredes da cidade, vou arriscar
falar deste Projeto Quixote do agora. Sinto que sua sutil diferença ainda é ser um lugar como
todos os outros, cheio de artistas. E isto – ser um lugar como qualquer outro – é o ato que faz
o Quixote ser diferente e comum, aspirando ruir as paredes, realizando de fato a comunidade.
Esta “uma outra história” do QXT, assim como nós artistas – que residimos da cozinha a
agência de graffiti, da recepção às salas de atendimento e oficinas, da direção à administração
e faxina – temos um compromisso com a nostalgia e o pressentimento e com isso, nos faz
permanecer no Quixote de sempre dando vazão ao devir contínuo que faz da metamorfose a
dádiva do nosso ofício rumo a concretização do paraíso terrestre.

Nossa missão é continuar e perguntar a cada indivíduo que encontramos nesse trem
desgovernado, se eles não têm saudade de como as coisas eram antes da partida, se eles não
têm vontade de ir para o lado de fora, se eles não se lembram como eram as coisas quando
eles ainda eram crianças. Nossa missão é continuar se indignando e continuar indagando as
pessoas que dormem e se confundem com o metal do vagão do trem: ei, psiu, como pode
ser tão forte o apelo deste trem, você não percebe que está incomodo por aqui, neste lugar
apertado e medido, existem outras coisas lá fora. Despertar a intuição, acordar o olho da nuca
dos homens, “o extinto” – mesmo quando somos pegos por aquela velha impressão de que
tudo já foi feito e que só conseguiremos partir do que conhecemos – é a missão que deve estar
gravada no nosso subconsciente.

Este trabalho habita o nosso inconsciente, habita o porão de nossa casa. No nosso porão
também habita a certeza de muito trabalho a fazer, um trabalho de escultor do tempo.
“Esculpir o tempo”, esta pode ser a imagem do nosso trabalho, mas em nossas condições
frente às demandas, sem um pingo de ansiedade, seria mais verdadeiro dizer, escavar o
tempo. Por isso deixo um convite a quem possa vir conhecer “verdadeiramente” as novas
instalações do Projeto Quixote, se quiserem ver a imagem do que é o trabalho de escavar
o tempo e nele achar reminiscências herdadas por milhões de seres rumo a uma iminente
realização, por favor, venham conhecer o porão habitado pela nova casa do Projeto Quixote, lá
está a imagem da nossa missão, o inconsciente de nossa morada.

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